Quando Alex (nome fictício) tinha cerca de 12 anos, gostava de trepar às árvores com um amigo e de correr um atrás do outro, como no jogo da apanhada. Foi nessa altura que percebeu ter uma “conexão muito grande com a natureza” e que o seu “coração pertencia ali”. Essa conexão evoluiu para algo mais: Alex começou a reconhecer-se como um animal, em particular um cão da raça border collie.
A descoberta pessoal levou a episódios de bullying na escola, que o obrigaram a esconder esse lado. Hoje, já adulto, fala abertamente sobre ser therian e critica a Ordem dos Médicos Veterinários (OMV), que emitiu orientações sobre como agir caso um therian procure uma consulta veterinária. “Sabemos plenamente que somos pessoas”, afirma Alex. O bastonário dos veterinários explica que a medida foi preventiva: embora não haja casos conhecidos em Portugal, há relatos de therians nos EUA e em alguns países europeus que buscaram acompanhamento em clínicas veterinárias.
O comunicado, partilhado internamente em maio, refere que “o médico veterinário, perante um teriantropo, deve recusar a prática de atos de diagnóstico, prescrição e tratamento de doenças — atos médicos reservados a médicos”. Deve ainda explicar que “está legalmente habilitado apenas para tratar de animais e não pode prestar cuidados de saúde a pessoas, ainda que estas se identifiquem como animais”. O documento salienta que a lei portuguesa não prevê qualquer estatuto jurídico de “identidade animal”.
A OMV garante ao Observador que “não houve nenhum caso registado” de therians a marcar consultas em clínicas veterinárias. “A Ordem foi questionada por alguns membros sobre o que fazer na eventualidade de acontecer. As dúvidas surgiram por causa de uma tendência que existe na Europa e nos EUA”, explica a OMV.