Em abril, as forças russas controlavam menos 116 quilómetros quadrados de território ucraniano do que no final de março. É a primeira vez em quase dois anos que o saldo mensal de conquistas territoriais é negativo para Moscovo — e, segundo uma reportagem da CNN Internacional, isso está a afetar o moral das tropas de Putin.
Pela primeira vez desde o verão de 2024, a Ucrânia está a recuperar território conquistado pela Rússia, de acordo com uma análise do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW). Durante abril, a quantidade de território recuperado pelos ucranianos superou a quantidade conquistada pelos russos. A última vez que Kiev teve um saldo positivo foi em agosto de 2024, durante a incursão na região russa de Kursk. Desde então, a Rússia vinha aumentando sistematicamente a sua área controlada, chegando a conquistar mais de 500 km² por mês.
A partir de novembro, os avanços russos começaram a diminuir. Em fevereiro, o saldo positivo foi de apenas 123 km²; em março, de 23 km². Em abril, a tendência inverteu-se.
Segundo o ISW, vários fatores explicam o declínio do avanço russo, sobretudo os contra-ataques com drones de médio alcance, que estão a causar forte disrupção na logística russa. Os contra-ataques terrestres ucranianos também têm papel importante. Além disso, o bloqueio do Starlink por Elon Musk às forças russas e as restrições do Kremlin ao Telegram "exacerbaram problemas já existentes dentro das forças russas".
O instituto faz uma leitura cautelosa, lembrando que em anos anteriores as forças russas também enfrentaram dificuldades em março e abril devido ao degelo e às chuvas, que dificultam o avanço de veículos militares. Em maio e junho, a Rússia conseguiu retomar o avanço, e o mesmo pode acontecer este ano.
No entanto, algo mudou na retórica russa. Na semana passada, Putin disse acreditar que o conflito está "perto de acabar" e mostrou disponibilidade para negociar com Zelensky. O jornal The Guardian apontou cinco razões para a mudança de discurso, sendo a primeira a inversão territorial. Além disso, a Ucrânia alega que, nos últimos cinco meses, matou ou feriu mais soldados russos do que os recrutados para os substituir — Moscovo estaria a perder soldados a um ritmo maior do que consegue repor. A parada militar do Dia da Vitória na Praça Vermelha foi mais modesta que o habitual.
Se antes a Rússia chegava a recrutar 50 mil soldados por mês, agora estaria a recrutar menos de 30 mil. Em contrapartida, a Ucrânia afirma ter eliminado cerca de 35 mil soldados russos por mês em março e abril.
O militar ucraniano Kyrylo Bondarenko, destacado perto de Zaporíjia numa unidade de drones, disse à CNN: "Conseguimos ver e sentir como o moral entre as tropas russas na linha da frente está a mudar. Eles estão exaustos. Conseguimos mudar a maré."
Até agora, Putin baseava-se no argumento de que a Rússia avançava sistematicamente e conquistaria o Donbass. Mas esse avanço, lento e gradual, custava um número desproporcional de perdas humanas. "Toda a premissa da tática negocial de Putin é usar esta guerra psicológica para convencer o Ocidente de que não há razão para apoiar a Ucrânia", disse a investigadora Christina Harward, do ISW. "Isto está a abrir brechas em toda essa narrativa."
Aposta nos drones dá superioridade à Ucrânia
Como escreve o The Guardian, a Ucrânia está a tornar-se uma superpotência em drones, o que ajuda a explicar a inversão no terreno. Se no início da invasão dependia do apoio ocidental, Kiev investiu na sua própria indústria de defesa e alcançou grande sucesso na produção de drones, chegando a exportar tecnologia para países do Médio Oriente.
A CNN explica que, se antes a Ucrânia se focava em drones de curto e longo alcance, nos últimos meses apostou nos de médio alcance, que têm feito a diferença. "Temos visto um aumento drástico no número destes ataques", confirmou Harward. "Estão a afetar a logística russa."
A saturação de drones na linha da frente cria um impasse que favorece a Ucrânia, impedindo a Rússia de avançar lentamente. Em resposta, as forças russas tentam infiltrar-se em zonas sob controlo ucraniano para hastear bandeiras, mesmo que sejam rapidamente expulsos, criando a sensação de avanços.
As dificuldades económicas na Rússia, os ataques ucranianos em território russo, as perdas humanas (mortos russos podem superar 350 mil, contra 100-150 mil ucranianos) e os cortes de internet e redes sociais aumentam o descontentamento entre os russos, levando Putin a não lançar novas campanhas de recrutamento em massa.
Esta semana, um dos ataques mais mortíferos da Rússia contra Kiev matou 24 pessoas e feriu 48, incluindo três crianças. Zelensky ordenou uma resposta. Os ataques russos contra cidades e infraestruturas energéticas têm aumentado. Segundo a ONU, 2025 foi o ano mais mortífero para civis ucranianos desde 2022.
Apesar da inversão no ritmo das conquistas, o desfecho da guerra continua incerto.