
Durante muitos anos, fui pessoa de perfume de assinatura. Adorava a ideia de as pessoas associarem um único cheiro à pessoa que sou. De se lembrarem de mim ao senti-lo ou de reconhecerem a minha chegada, ainda antes de me verem. É uma honra ter um “cheiro a Carmo” depois de tantos anos a tentar escolhê-lo.
Não sei quanto a si, leitora, mas escolher um perfume, para mim, não é tarefa fácil. Acredito que um perfume diz muito sobre quem o usa e, por isso, tomo o meu tempo a analisar o que quero dizer quando passo por alguém ou quando deixo um elevador (sim, eu sou dessas).
Womanity, de Thierry Mugler. Foi uma relação de amor-ódio, até decidir usá-lo todos os dias, ininterruptamente, durante quase dez anos. Ainda hoje, é “o meu cheiro”. Tenho sempre um frasco – aliás, incumbi um familiar de, na dúvida, me oferecer sempre um no Natal. Mas este artigo não é sobre isso – um próximo poderá ser.
Frasco de memórias
Este artigo é sobre perfumes carregados de boas memórias. Das horas ao sol, dos últimos mergulhos do dia, das bebidas frescas na mão e dos jantares em esplanadas – com o pôr do sol tardio no horizonte – que se estendem para noites felizes em que os fios de cabelo se colam nas costas e os pés doem de tanto dançar.
Os perfumes têm este poder, não é? De encapsular bons momentos, guardar histórias e roubar sorrisos. De nos fazer viajar para tudo isso, quando abrimos a tampa e respiramos fundo. Confesso: em dias cinzentos de inverno, às vezes, uso um “perfume de verão”, quase como um talismã, para que as recordações de um dia quente e feliz me deem energia para uma lista de afazeres com demasiadas caixinhas sem um certo.
O que é um perfume de verão?
Em última análise, um perfume de verão é um perfume que já usou ou escolhe usar no verão. Não tem de haver regras no mundo da perfumaria. Tipicamente, deixam-se os cheiros mais densos, pesados ou quentes, para dias mais frios e escuros. Muito como na roupa, há uma tendência quase natural em preferir aromas mais leves e frescos para dias de calor. Perfumes com notas tropicais ou frutadas, cítricas ou florais, têm o seu momento nos dias mais quentes.
Descrever perfumes é uma tarefa ingrata, já que – a menos que seja perfumista – é extremamente difícil chegar a um cheiro, somando todas as notas que apenas descrevemos com letras que pouco nos dizem. Se nem a provar um cozinhado eu consigo perceber o que lhe falta, como é que sinto um perfume só a ler a sua composição?
Um perfume é as histórias que ele guarda, o sítio e o momento para onde vamos quando o cheiramos. E uma viagem muito pessoal. Mas, vá! Se uma pessoa quer escrever sobre beleza, tem de conseguir descrever um perfume. Darei o meu melhor.
O eterno cheiro a coco
Haverá uma nota que grite “verão” mais alto do que o cheiro a coco?
De uma marca portuguesa, o (1) Olhar Trancoso da Comporta Perfumes (€160; 100 ml) faz a magia de conseguir um perfume de coco nada óbvio e superfresco. Imagine-se a caminhar na praia, no final do dia, com uma bebida fresca de coco na mão: é este perfume. Mais quente, tem o (2) Soleil Blanc da Tom Ford (€105,58; 30 ml). Sol e luxo são as palavras de ordem para este aroma âmbar floral que combina notas quentes e doces.
Um meio-termo será o (3) Bronze Goddess da Estée Lauder (€74,90; 100 ml). Mantém o coco e o âmbar na base, mas com o fresco dos cítricos de topo e a suavidade floral das notas de coração. Muito semelhante, mas por uma fração do preço: (4) Sun da Nuxe (€32,34; 100 ml). Por ser uma água perfumada, não terá uma fixação tão forte, mas tem a vantagem de – por não ser fotossensibilizante – a poder usar entre banhos de sol. Experimente também umas borrifadelas nos lençóis, antes de se deitar.