Índice
Índice
No atual clima de polarização política, um livro que traça paralelos entre o fim da República de Weimar e o cenário contemporâneo em várias democracias ocidentais não poderia passar despercebido. Os Irresponsáveis: Quem pôs Hitler no poder?, do historiador francês Johann Chapoutot, chega às livrarias portuguesas pela Edições 70, alimentando o debate sobre se a ascensão do nazismo foi uma fatalidade histórica ou o resultado de escolhas conscientes das elites alemãs.
Chapoutot, especialista reconhecido no estudo do nazismo, com uma vasta obra sobre o tema, não esconde as suas simpatias políticas próximas da esquerda radical francesa. No entanto, o seu trabalho baseia-se numa análise rigorosa de arquivos, diários, discursos e imprensa da época, focando-se no período crucial de março de 1930 a janeiro de 1933. O livro é uma leitura essencial para quem quer compreender como uma democracia pode morrer, mesmo num país de elevado nível cultural e científico.

O desemprego cria nazis?
Chapoutot critica a forma simplista como os manuais escolares atuais tratam a ascensão do nazismo, associando-a diretamente ao desemprego e à crise económica. O autor mostra que a relação entre desemprego e votos no Partido Nazi não é linear: houve períodos em que as duas variáveis divergiram. A ideia de que a hiperinflação dos anos 1920 e o crash de Wall Street de 1929 foram as causas diretas do nazismo é desmontada. A hiperinflação foi controlada em 1924, e a crise de 1931-32 teve origem na falência do banco austríaco Creditanstalt, que contaminou o sistema financeiro alemão.

Taxa de desemprego na Alemanha, 1928-36
O historiador argumenta que a ascensão de Hitler não foi inevitável, mas sim o resultado de uma série de decisões e omissões de atores políticos e económicos, que preferiram apostar no nazismo como forma de conter a ameaça comunista e preservar os seus interesses. O título do livro, Os Irresponsáveis, refere-se precisamente a essas elites que, por medo ou cálculo, abriram as portas ao regime nazi.
BundesarchivCorrida aos bancos em Berlim, em Julho de 1931