O Governo de Luís Montenegro nomeou 26 novos presidentes para conselhos de administração de Unidades Locais de Saúde (ULS) em pouco mais de dois anos de governação. As mudanças abrangem dois terços dos conselhos de administração das 39 ULS do país — unidades administrativas resultantes da reforma do SNS que concentrou a gestão de cuidados de saúde primários e hospitalares. Entre os presidentes nomeados, 18 têm ligações conhecidas ao PSD e ao CDS.
Isso significa que 69% dos novos presidentes das ULS são próximos dos partidos do Governo, sendo que a esmagadora maioria possui cartão de militante. Entre eles, encontram-se antigos deputados na Assembleia da República, presidentes de Câmara que interromperam mandatos, candidatos autárquicos nomeados semanas após derrotas eleitorais e presidentes de estruturas locais do PSD.
Muitos têm experiência profissional em administração hospitalar, vários possuem apenas experiência na direção de unidades de cuidados primários, e outros não tinham qualquer formação ou experiência em gestão ou saúde antes da nomeação. A CReSAP (Comissão de Recrutamento e Seleção para a Administração Pública) pronunciou-se favoravelmente sobre todas as 18 nomeações.
Recentemente, Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, voltou a levantar a questão das nomeações políticas para as ULS, a propósito do conflito entre a ministra da Saúde e Carlos Robalo Ribeiro, médico que a própria nomeou para coordenar o acompanhamento do Plano de Emergência e Transformação na Saúde.
Xavier Barreto advertiu, em declarações ao Observador, que esta é uma das principais mudanças estruturais de que o SNS necessita. “Sabemos que se não despolitizarmos as nomeações para muitas das nossas ULS e garantirmos que as pessoas são nomeadas em função da sua experiência, currículo e provas dadas, teremos sempre problemas na gestão.”
A ministra da Saúde garantiu, em fevereiro de 2025, que “o PSD não manda” nas nomeações para o SNS. Ana Paula Martins disse que o PS tem “muito pouca moralidade” para fazer essa crítica, lembrando que todos os 39 conselhos de administração das ULS foram escolhidos pelos socialistas, quando o último executivo de António Costa estava em gestão após a queda do Governo.
Confirma-se que, em várias mudanças nas administrações das ULS, ocorreram trocas diretas de militantes do PS por militantes do PSD. Nem sempre o Governo esperou pelo fim dos mandatos: entre as 26 novas administrações nomeadas desde que Ana Paula Martins assumiu a tutela da Saúde, oito foram exoneradas antes do término dos respetivos mandatos.