Dois vereadores do PS na Câmara Municipal de Lisboa foram constituídos arguidos no âmbito da Operação Imergente – metade da equipa socialista liderada por Alexandra Leitão no município. Sérgio Cintra confirmou ao Observador que foi notificado após as buscas realizadas ao seu domicílio na quinta-feira passada. Carla Madeira é a outra vereadora arguida. Nenhum dos dois pretende suspender as funções na CML.
O vereador socialista fez declarações ao Observador a mostrar-se disponível para colaborar com as autoridades na investigação. Disse também desconhecer o teor das suspeitas que estão na base da sua constituição como arguido. A outra vereadora arguida foi questionada diversas vezes pelo Observador sobre a sua situação, mas não respondeu.
Cintra é atualmente vereador em Lisboa, lugar para o qual foi eleito nas últimas autárquicas, mas antes disso foi, desde 2013, presidente da Assembleia de Freguesia de Santa Maria Maior, a junta que está no centro da investigação. O presidente desta autarquia nesse mesmo período (2013-2025) era Miguel Coelho que também é arguido nesta investigação.
No tempo em que foi presidente da Assembleia de Freguesia, Sérgio Cintra trabalhou também na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, entre 2016 e 2024, tendo saído na altura em que o Governo PSD/CDS exonerou toda a Mesa da Santa Casa, incluindo a provedora Ana Jorge. Entre 2007 e 2016, esteve na Gebalis, empresa municipal responsável pela gestão da habitação social em Lisboa, da qual foi presidente do Conselho de Administração a partir de 2013.
Já Carla Madeira foi eleita Presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia em 2013, e desempenhou esse cargo até ser eleita vereadora em Lisboa, nas autárquicas de outubro passado. Atualmente é também coordenadora das Mulheres Socialistas de Lisboa e integra a Comissão Política Concelhia do PS Lisboa.
Consulta prévia na Misericórdia sob suspeita
O primeiro contrato da Diálogo Emergente, empresa de Duarte Moral (assessor de José Luís Carneiro, secretário-geral do PS) e de Rui Nascimento (ex-líder do PS de Oeiras) foi com a Junta da Freguesia da Misericórdia, então liderada pela socialista Carla Madeira. A empresa de Moral e de Nascimento foi contratada através do regime de consulta prévia, por um valor de 22.000 euros. Pormenor muito relevante: marido e mulher foram concorrentes na consulta prévia feita pela Junta da Misericórdia.
Ou seja, a Diálogo Emergente de Duarte Moral concorreu com a Cidade Etérea de Rute Reimão — um facto que coloca aquela consulta prévia sob suspeita, por manipulação das regras da contratação pública. Participou ainda uma terceira empresa, mas, no final, ganhou a Diálogo Emergente para prestar serviços de “consultoria e imagem, informação, participação e cidadania”, segundo o portal base.gov.
Já este ano, a 12 de fevereiro, a Diálogo Emergente voltou a ganhar um concurso para o mesmo tipo de serviço. Desta vez, o valor mais do que triplicou, ascendendo aos 88.560 euros, a serem liquidados em prestações mensais fixas de 2 mil euros acrescidos de IVA, com uma duração prevista de 36 meses.