Sem mencionar acordo das Lajes, Seguro defende aprofundamento das relações com os EUA
António José Seguro marcou as comemorações do Dia de Portugal para a Terceira, numa altura em que os Estados Unidos (EUA), que utilizam a Base das Lajes, estão em guerra com o Irão. Contudo, o Presidente da República recusa estabelecer uma ligação entre as duas circunstâncias e pronunciar-se, para já, sobre quando considera que o acordo de uso por parte da potência norte-americana deve ser renegociado. O chefe de Estado defende apenas que as relações com os EUA devem ser aprofundadas, tal como com o Canadá e o Mercosul, e que essa posição é “complementar” com o reforço da autonomia da Europa.
Seguro, que chegou esta manhã aos Açores, começou o dia por prestar cumprimentos à nova representante da República para a região, Susana Goulart Costa, a primeira mulher a ocupar o cargo, nomeada pelo Presidente em abril. Apesar da chuva, a representante recebeu o chefe de Estado, que se fez acompanhar da mulher, Margarida Maldonado Freitas, à porta do Solar Madre Deus e, após uma troca de breves palavras, entraram no edifício branco e azul. Aos jornalistas, o chefe de Estado deixou apenas um aceno.
Ao fim de cerca de 30 minutos de encontro, Seguro falou à comunicação social, dizendo que é uma “honra” visitar os Açores como Presidente pela primeira vez e um “privilégio celebrar o Dia de Portugal no meio do Atlântico”, sobretudo “num ano em que todo o país celebra as autonomias regionais”. Autonomias que são “importantes para o desenvolvimento destas regiões e o desenvolvimento equilibrado do nosso país e para garantir a coesão territorial”, sublinhou. “A unidade nacional e a união dos portugueses é uma das minhas preocupações e uma das razões pelas quais escolhi realizar o 10 de Junho e celebrar o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades nos Açores e, mais concretamente, na ilha Terceira”, declarou.
A celebração decorre numa altura em que a Base das Lajes, localizada na Terceira, tem suscitado polémica por ser utilizada pelos EUA num contexto de guerra contra o Irão. Questionado pelos jornalistas sobre se escolheu esta ilha para comemorar o 10 de Junho de forma a afirmar a soberania nacional, o Presidente argumentou apenas que “afirma a soberania nacional em qualquer canto do país”. “Afirmar a nossa soberania nacional e a defesa da nossa independência nacional é uma das tarefas mais nobres e exigentes de um Presidente”, destacou.
Seguro também não revelou se considera, como defendeu na campanha às eleições presidenciais, em janeiro, que o acordo para utilização da Base das Lajes pelos EUA deve ser renegociado ainda durante a administração de Donald Trump ou apenas depois da guerra, como sustentou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, em entrevista à RTP e Antena 1, nesta terça-feira. Nem se pronunciou sobre as declarações de Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano, que afirmou que Portugal deu aval à utilização da base “antes mesmo” de saber “o assunto”.
“Vocação universalista”
O Presidente optou por reiterar que é um “defensor da manutenção da NATO” e que Portugal deve “ter boas relações” com os EUA e “aprofundar essas relações a todos níveis”, nomeadamente “económico, comercial e de segurança”. Além disso, referiu que o país beneficiaria de uma “visão mais alargada em relação ao Atlântico”, que passe também pelo “Canadá e o Mercosul”. “Nós temos uma vocação universalista e devemos dar expressão a essa vocação através de cooperações muito concretas”, realçou.
Para o chefe de Estado, ser um “defensor da autonomia estratégica da Europa em matéria de segurança e defesa” e do aprofundamento das relações com os EUA “são [posições] complementares”. Pressionado a responder sobre a revisão do acordo da Base das Lajes, Seguro disse apenas que “este não é o momento” para abordar este tema. “Teremos tempo para nos referirmos a esses aspectos”, afirmou.
O Presidente foi ainda questionado sobre porque é que afirmou que se “complementa” com o primeiro-ministro, durante uma visita ao Luxemburgo, no âmbito das comemorações do 10 de Junho, tendo explicado que essa referência se deve ao facto de ter assinado a bandeira portuguesa na parte verde, ao passo que Luís Montenegro escolheu a parte vermelha. Mas garantiu também que “tem havido boa articulação” e “boas reuniões de trabalho” entre Belém e São Bento, o que “corresponde ao compromisso” que fez na campanha eleitoral de ser um “Presidente acima dos partidos” e um fator de “equilíbrio” do “sistema político”. “Tenho conseguido”, considerou, em jeito de balanço do seu mandato, que cumpre três meses nesta terça-feira.