Cavaco Silva registou esta terça-feira uma coincidência logo depois de receber a Ordem Europeia do Mérito em Estrasburgo: passam 41 anos do dia em que jurava só ir fazer a rodagem do Citroën ao Congresso da Figueira da Foz e acabou líder do PSD. Numa reunião com eurodeputados, num ambiente mais descontraído e à porta fechada, o deputado Sebastião Bugalho atirou: “O que é fez ao Citroën?”. O antigo Presidente da República, sorridente, respondeu: “Que eu saiba, não está no museu“, relataram várias fontes europeias na sala ao Observador.
Aníbal Cavaco Silva acabaria por não deixar passar a provocação e garantir que era mesmo “verdade” que não foi com segundas intenções à Figueira da Foz, já que o Congresso à partida seria disputado entre João Salgueiro e Rui Machete. A mulher, Maria Cavaco Silva, também não deixaria de responder de forma humorada ao cabeça de lista da AD nas Europeias no fim dessa sessão: “Ó Bugalhinho, tem quarenta anos para descobrir a resposta a essa pergunta”.
Nessa sessão à porta fechada, Cavaco assumiu a liderança e foi fazendo perguntas e respondendo a outras, numa espécie de Town Hall improvisado. O antigo Presidente perguntou, por exemplo, quantos eurodeputados na sala eram repetentes: só Lídia Pereira, do PSD, levantou o braço. Francisco Assis, que de manhã o elogiou, também não é estreante, mas não fez mandatos seguidos.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Depois, a própria Lídia Pereira perguntou a Cavaco Silva há quanto tempo não ia ao Parlamento Europeu. O antigo Presidente lembrou que foi ali como primeiro-ministro e “várias vezes como Presidente”, mas acima de tudo registou que já tinha “andado quilómetros” esta terça-feira, que já não se lembrava de tantas escadas e elevadores, e que à noite — quando visse a “distância” que tinha andado no telemóvel — certamente teria sido uma maratona. Cavaco quis depois saber quantas sessões existiam em Estrasburgo, lembrando que assistiu “a grandes discussões com Mitterrand“, sobre a importância de manter em França o Parlamento Europeu. O antigo Presidente lembra que, quando pressionavam Paris a abdicar de Estrasburgo, o presidente francês François Mitterrand ripostava: “Quando eles insistiam ele dizia: então o BCE não vai para Frankfurt”.
Cavaco Silva perguntou depois aos eurodeputados o que achavam do assunto e todos os que falaram mostraram preferir o chamado “single seat”. O antigo chefe de Estado questionou ainda os deputados sobre quantas vezes tinham sessões em França. Vários eurodeputados, com Paulo Cunha à cabeça, explicaram que o trabalho era muito mais em Bruxelas e que só iam uma vez por mês a Estrasburgo. O antigo Presidente respondeu logo com humor: “Isto só mostra que o Governo francês está mais fraco.”
Nos diálogos com eurodeputados, Cavaco perguntou ainda quem tinha o pelouro das Relações Externas, questão à qual responderam afirmativamente Francisco Assis e Sebastião Bugalho. O Presidente questionou então ao deputado do PSD, que era o que estava na sala fisicamente mais perto, o que iria dizer a Vladimir Putin se a Europa for mandatada a ir a Moscovo negociar. Ao que Bugalho respondeu que ainda estavam na fase de se entender sobre quem ia (se o presidente da Comissão, o presidente do Conselho ou Alta Representante) — uma indefinição típica europeia que motivou sorrisos.