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Quando ainda se dedicava apenas à arquitetura, Paulo Rezzutti estudou a casa que Domitila de Castro Canto e Melo, marquesa de Santos, tinha em São Paulo. No âmbito dos seus estudos, descobriu que a marquesa tinha nascido e morrido em São Paulo e que, durante sete anos, teve “um caso” com o imperador brasileiro, D. Pedro I. Isso deixou-o “curioso”. Será que, ao longo dos seus 70 anos de vida, Domitila de Castro Canto e Melo não tinha feito mais nada digno de nota além de ser amante do imperador durante uns meros sete anos? Paulo Rezzutti dedicou-se, então, a investigar a vida da marquesa, uma aventura que, mais tarde, o levou a mergulhar na vida do próprio D. Pedro e de outros membros da família dos Bragança. “Uma coisa levou à outra” e, no seu mais recente trabalho historiográfico, o investigador e membro dos institutos históricos de São Paulo, Petrópolis e Campos dos Goytacazes dedicou-se à figura de D. João VI, o primeiro rei português a atravessar o Atlântico e a estabelecer-se no Brasil, a maior e mais importante colónia portuguesa.
Publicado recentemente em Portugal pela Penguin, D. João VI: A História Não Contada pretende, tal como no caso da biografia de Domitila de Castro Canto e Melo, oferecer um retrato mais amplo do rei e dar a conhecer outros aspetos da sua personalidade e vida que são menos conhecidos, colocando em perspetiva o episódio que se mantém central nas narrativas sobre D. João VI: a sua partida para o Brasil, juntamente com toda a corte, para escapar às invasões francesas. Na opinião de Paulo Rezzutti, que esteve em Portugal a propósito do lançamento da edição portuguesa do seu livro, ao insistir-se em abordar a questão da partida de D. João VI apenas como “uma fuga”, está-se “a retratá-lo como um cobarde que preferiu fugir do que ficar” e lutar. A questão é muito mais complexa e teve como principal objetivo a preservação da família real e, também, de uma parte significativa dos domínios portugueses, como explicou o investigador brasileiro, em entrevista ao Observador.
Apesar de ter sido muitas vezes acusado de ser inepto e incapaz de tomar decisões, para o investigador, D. João VI não estava isento de alguma manha e não era desprovido de inteligência. Antes pelo contrário. Um amante das artes e das ciências, algumas das suas iniciativas mais importantes perduraram no tempo e os vestígios deixados por algumas delas ainda podem ser visitados no Brasil. Paulo Rezzutti não tem dúvidas de que D. João VI foi um “bom rei”, mas a mágoa provocada pela sua partida não desapareceu.