“Ou estão comigo ou estão contra mim”; “foi preciso vir um Boieiro para pôr os bois no sítio”; “é uma incompetente do século passado”; “[sou] amigo da ministra, vejam lá, portem-se bem”. O Enfermeiro Diretor da Unidade Local de Saúde (ULS) do Alentejo Central, que integra o Hospital de Évora, é acusado de seguir um “padrão de gestão baseado no medo” e as expressões anteriores, que lhe são atribuídas, são apenas alguns exemplos dos casos relatados nas 15 queixas apresentadas contra Emanuel Boieiro ao longo das últimas semanas, numa tomada de posição que está a agitar o hospital.
Vários enfermeiros denunciaram ao Conselho de Administração da ULS (e também ao departamento do trabalho daquela unidade) situações de assédio moral, ameaças, injúrias, retirada de competências, intimidação, humilhação pública, violação de direitos ou coerção levadas a cabo por Emanuel Boieiro. Alguns profissionais apresentaram mesmo baixas médicas por danos psicológicos que dizem ter sofrido na sequência da conduta do Enfermeiro Diretor, apurou o Observador.
A ULS do Alentejo Central confirma a receção de queixas contra Emanuel Boieiro, embora não detalhe exatamente quantas participações foram formalizadas. No entanto, o Observador apurou que foram pelo menos 15 as exposições apresentadas por alegada conduta imprópria do Enfermeiro Diretor, apesar de não ser claro se terão sido 15 os enfermeiros queixosos ou se há mais do que uma queixa apresentada pelo mesmo profissional. Também a Ordem dos Enfermeiros está a investigar o caso, tendo já acionado o órgão disciplinar, confirmou o próprio bastonário ao Observador. Já a Inspeção Geral das Atividades em Saúde confirma que recebeu as queixas dos enfermeiros da ULS, estando a analisar o conteúdo das mesmas para decidir se abre um inquérito.
A queixa mais extensa contra o Emanuel Boieiro, a que Observador teve acesso, foi redigida no final de março por um grupo de enfermeiros, que denunciam uma “postura continuada” (que se arrasta desde novembro de 2025) de comportamentos que levaram à “criação de [um] ambiente intimidatório e [de] ameaça direta”, com atos que consideram constituir “injúrias, difamação e humilhação pública; assédio moral e esvaziamento funcional; violação de direitos e controlo coercivo; deslealdade institucional; e conflito de interesses”.
No que diz respeito ao ambiente intimidatório, os enfermeiros alegam que Boieiro utiliza sistematicamente expressões de coação como “ou estão comigo ou estão contra mim” e “eu estou a conduzir este comboio… quem não quiser acompanhar… fica na carruagem de trás e fica identificado”. Segundo a queixa, o Enfermeiro Diretor invoca também uma alegada proximidade à ministra da Saúde, Ana Paula Martins, e ao bastonário dos Enfermeiros, Luís Barreira, algo que tem sido interpretado como uma forma de tentar silenciar eventuais denúncias que venham a ser apresentadas contra ele próprio. Segundo os enfermeiros, Boieiro diz ser “amigo da ministra”, afiançando que, “se alguém fizer queixa, ele [Emanuel Boeiro] vai saber e irá vingar-se”. “Vejam lá, portem-se bem”, dizem avisar o Enfermeiro Diretor.
Emanuel Boieiro é militante do PSD e, em 2021, foi o candidato do partido à Junta de Freguesia da Quinta do Anjo, em Palmela.
Enfermeiros denunciam “linguagem desumanizada e humilhante” usada por Emanuel Boieiro
Na exposição, enviada inicialmente à responsável pela Unidade de Segurança no Trabalho da ULS, e depois encaminhada para o Conselho de Administração, os enfermeiros queixam-se também do uso de “linguagem desumanizada e humilhante” por parte de Emanuel Boieiro, referindo-se aos profissionais como gado: “Foi preciso vir um Boieiro para pôr os bois no sítio.”
Segundo os enfermeiros, Boieiro desvaloriza publicamente as competências de Diretores de Serviço de enfermagem e responsáveis de gabinetes, utilizando termos como “incompetente do século passado” e “força de bloqueio”. Numa reunião com um “responsável do serviço” do Hospital de Évora, e referindo-se à responsável pelo Gabinete de Formação daquela unidade, o Enfermeiro Diretor terá dito: “É uma incompetente do século passado. Alguma vez se viu os processos em papel e feitos certificados à mão? Nem na época dos Afonsinhos.”
Do ponto de vista dos direitos do trabalho, o Enfermeiro Diretor é acusado de “intrusão na vida privada, através de contactos fora do horário de trabalho, em férias e até em períodos de incapacidade temporária/doença”. E também é acusado de controlar o “acesso a pastas partilhadas essenciais (SIADAP e Qualidade), prejudicando a operacionalização dos serviços”.
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No âmbito do assédio moral, os enfermeiros falam numa retirada deliberada e “injustificada” de funções a colaboradores nomeados, o que estará a gerar nos enfermeiros “um quadro de inutilidade profissional e sofrimento ético”. Outra questão levantada é a da destituição de responsáveis “por desacordo de opiniões técnicas”, o que compromete, realçam os enfermeiros, a autonomia de gestão das unidades. Emanuel Boieiro é ainda acusado de difamar o atual Conselho de Administração da ULS, do qual faz parte, dizendo que o CA “não está pronto para responder com o presidente que tem”, referindo-se a Carlos Gomes, que dirige a ULS do Alentejo Central desde novembro, altura em que Emanuel Boieiro foi também nomeado Enfermeiro Diretor.
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O atual Conselho de Administração da ULS é um dos que tem ligações ao aparelho social-democrata. O presidente, o gestor Carlos Gomes, foi candidato pelo PSD à Câmara Municipal de Arraiolos nas últimas eleições autárquicas, em outubro de 2025, tendo falhado a eleição por larga margem. Cerca de um mês depois, viria a ser nomeado presidente da ULS, substituindo Vítor Fialho, que tinha ligações ao PS.
Quem é Emanuel Boieiro?
Licenciado pela Escola Superior de Enfermagem Maria Fernanda Resende (em Lisboa), Emanuel Boieiro era enfermeiro especialista em Reabilitação na Unidade de Cuidados Continuados Ponte para a Saúde (em Coruche) quando foi nomeado para Enfermeiro Diretor da ULS do Alentejo Central, em novembro de 2015, aos 44 anos.
No currículo, Emanuel Boieiro conta com uma passagem pelo Serviço de Hematologia, pelo Serviço de Medicina Interna e pelo Serviço de Dermatologia do Hospital dos Capuchos. Foi ainda enfermeiro especialista em Enfermagem de Reabilitação no Serviço de Medicina Interna 1.4 e no Serviço de Cirurgia do Hospital de São José antes de, em 2018, iniciar funções na Unidade de Cuidados Continuados Ponte para a Saúde (Coruche).
Fundador e presidente do Sindicato Nacional dos Enfermeiros, a nota curricular publicada em Diário da República descreve o enfermeiro como especialista em negociação coletiva, tendo participado em vários acordos, não só com o Governo mas também com os hospitais privados. Foi secretário-executivo da UGT entre 2019 e 2022, com responsabilidades em vários grupos de trabalho.
Um outro ponto da queixa apresentada pelo grupo de enfermeiros está relacionado com a atividade sindical de Emanuel Boieiro. O Enfermeiro Diretor da ULS do Alentejo Central foi, até outubro de 2025, o presidente do Sindicato Nacional dos Enfermeiros (estrutura sindical que o próprio fundou), tendo abandonado as funções — para dar lugar a uma nova direção — quando foi nomeado para o cargo na ULS. Foi a partir do momento em que deixou de exercer funções de representação sindical, e em que assumiu o cargo de chefia, que terá começado a manifestar os comportamentos que os enfermeiros denunciam.