1986 é um dos anos mais marcantes do século XX em Portugal. É o ano da adesão à Comunidade Económica Europeia. É o ano da eleição mais louca de sempre, com Mário Soares e Freitas do Amaral a disputar as primeiras presidenciais com 2ª volta. É o ano em que Cavaco Silva vence as legislativas e é indigitado primeiro-ministro. E é também o ano do maior escândalo da seleção nacional de futebol. No México, durante aquela que é a segunda participação de Portugal num Mundial, estalou um diferendo que durava há meses entre os jogadores e a direção da Federação Portuguesa de Futebol. A isso acumularam-se casos insólitos na cidade de estágio, Saltillo, como treinos num campo inclinado, seguranças com comportamentos duvidosos, mulheres mexicanas que se tornaram presença habitual no hotel da seleção, comportamentos impróprios de dirigentes e jogadores, ameaças de greves aos treinos e a eliminação na primeira fase. Os problemas tornaram-se assunto de Estado, com comunicados do Presidente e do Governo e o país não perdoou os jogadores.
O Mundial de 1986 tinha tudo para ser um momento glorioso para a seleção portuguesa. Marcava o regresso de Portugal à principal prova de futebol depois de uma ausência de 20 anos — Inglaterra, 66 —, mas uma sequência de eventos levou à revolta dos futebolistas. A 25 de maio de 1986, a nove dias do primeiro jogo no campeonato do mundo de futebol, os jogadores convocaram a imprensa para lerem um comunicado que deu início à contestação pública sobre as condições de treino e os valores das diárias e prémios pagos pela FPF aos atletas. As reações multiplicaram-se, o Presidente da República falou de uma situação “prejudicial à imagem de Portugal” e de “um problema de prestígio internacional”, há quem apelide os jogadores de “mercenários” e o Governo vai fazer um ataque direto ao questionar o profissionalismo dos futebolistas da seleção nacional. “Seja qual for o prisma sob que se analise a atitude reivindicativa dos jogadores, haverá, no mínimo, que a qualificar de antidesportiva, extemporânea e desprestigiante para o país que representam”.
Reconstruímos os dias caóticos que mudaram para sempre o futebol português. Escutámos quem esteve no México, desde jogadores a repórteres. Abrimos os jornais daqueles dias. E analisámos os relatórios da Federação Portuguesa de Futebol. O Escândalo que destruiu a Seleção é um podcast especial do Observador, em 4 episódios, sobre a participação portuguesa no Mundial do México.