Assumir os destinos da Seleção Nacional depois do Mundial de 1986 foi provavelmente o mais duro “caminho das pedras” da Federação Portuguesa de Futebol. Numa altura em que o país ainda discutia o escândalo de Saltillo e depois da rutura que resultou na indisponibilidade dos principais jogadores, o advogado Ruy Seabra foi escolhido para liderar a equipa portuguesa. Ao Observador, confessa que foi convidado de forma insólita ainda antes do Mundial no México e que tinha como objetivo desempenhar o papel de “selecionador civil”: uma liderança independente, imune à pressão dos clubes.
Ruy Seabra liderou a Seleção Nacional com o apoio de António Oliveira e Juca, que desempenhavam o papel de treinadores, e teve de construir uma equipa recorrendo a segundas escolhas, amparado pela experiência e liderança de veteranos como Manuel Fernandes, Veloso e Shéu. Nascia assim a “Seleção B” ou “Os Seabrinhas” — algumas das alcunhas atribuídas ao grupo, que teve de enfrentar a hostilidade das bancadas.
[Pode ouvir aqui em podcast o episódio extra de O Escândalo que Destruiu a Seleção, com a entrevista a Ruy Seabra]
Episódio extra. “Saltillo foi política: Bento, Carlos Manuel e Diamantino eram do Barreiro”
40 anos depois de liderar a Seleção Nacional e depois de o Observador reconstruir o caso Saltillo no podcast O Escândalo que Destruiu a Seleção, Ruy Seabra revela os bastidores de uma transição de emergência e analisa o futebol atual para apontar o dedo ao poder dos agentes, uma “terceira força” que considera mandar mais do que os próprios dirigentes.
Sem conselhos a dar a Roberto Martínez, cujo trabalho elogia, o antigo selecionador recusa abrir o debate sobre a titularidade de Cristiano Ronaldo: coloca o capitão num patamar indiscutível e antecipa que o avançado sairá da Seleção pelo próprio pé logo após o final do Mundial.