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Aníbal Cavaco Silva voltou a defender a necessidade de acelerar reformas no País, em particular a reforma da Administração Pública. Num artigo publicado esta terça-feira no Observador, o antigo Presidente da República escreve que, apesar de ser “amplamente reconhecido” que o país precisa de uma reforma nesta área, “não têm faltado algumas resistências vindas de dentro do próprio Estado”. Cavaco Silva lamenta também que, a esses obstáculos, se tenham “juntado apoios de forças políticas da oposição visando desgastar o Governo.” Ao contrário do que tem feito Passos Coelho, o antigo chefe de Estado não coloca assim o ónus e a pressão diretamente no Governo, embora deixe avisos ao primeiro-ministro.

Num apelo extensível a Luís Montenegro, Cavaco Silva diz que “sendo a reforma do Estado um caso em que o interesse nacional coincide com o interesse dos partidos do possível arco de governo, é fundamental que estes tenham a inteligência, o discernimento e a visão de futuro para acompanharem a determinação do ministro Gonçalo Matias”. O antigo primeiro-ministro sai mesmo em defesa incondicional do ministro — que enfrenta contestação dentro do próprio Governo — ao considerar que o governante “já revelou possuir as ideias certas sobre a reforma, de modo a melhorar a eficiência da Administração Pública, colocando-a verdadeiramente ao serviço dos cidadãos, das empresas e das instituições.” E deixa o aviso: “É uma oportunidade que não deve ser perdida.”

Cavaco Silva vai, ao longo do texto que escreve no Observador, recuperar várias vezes um artigo académico que escreveu em 1978 após participar no Congresso Internacional de Finanças Públicas realizado em Hamburgo, que tinha como tema “Public Choice and Public Economics”. Enviou-o na altura a Francisco Sá Carneiro, que depois o chamou ao gabinete para discutir o tema. Cavaco Silva recorda que, nesse texto, citava o professor americano James Buchanan, que afirmara que “os políticos, sendo pessoas normais, têm como principal objetivo a conquista e permanência no poder, podendo as suas decisões não serem consistentes com a melhoria do bem-estar social, devido a imperfeições do mercado político no mundo real.”

A frase recuperada por Cavaco Silva poderia ter leituras de que estaria a fazer alertas a Luís Montenegro similares aos que Pedro Passos Coelho tem feito. O antigo Presidente faz, por isso, questão de deixar claro que o que o artigo lhe trouxe “verdadeiramente à memória não foi a ação dos políticos portugueses (…) mas sim a influência dos burocratas no processo político de decisão e as dificuldades que podem criar aos membros do Governo.” Mas a referência a esse pecado inicial dos políticos está lá. E, em Cavaco Silva, nada é dito ou escrito ao acaso.