De aliados a rivais? A reconfiguração da relação entre Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos no Médio Oriente

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Em novembro, o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, visitou a Casa Branca e encontrou-se com o “amigo” Donald Trump. No meio de jantares glamorosos que contaram com a presença de Cristiano Ronaldo e multimilionários, o membro mais importante da coroa saudita terá tentado persuadir o Presidente norte-americano a impor sanções contra os Emirados Árabes Unidos, um dos seus supostos parceiros no Golfo Pérsico. Os líderes emiradenses ficaram surpreendidos, mas não foram apanhados totalmente desprevenidos, já que os dois países acumulavam meses de tensão.

Num contexto de fricção crescente, não é surpreendente que oito meses depois os Emirados Árabes Unidos tenham abandonado a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Não foi apenas esta decisão em si que contou, mas a forma como foi operacionalizada: Abu Dhabi comunicou a saída com apenas alguns dias de antecedência e sem aviso prévio à liderança do cartel que, há décadas, coordena a produção de petróleo. Gestos que demonstravam claramente o seu descontentamento em relação à Arábia Saudita — o país que mais beneficia economicamente com esta organização e com os preços elevados do crude.

Durante décadas, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos pareciam aliados inseparáveis. Duas monarquias com líderes fortes, regimes ancorados na sharia (a lei islâmica) e economias bastante dependentes do petróleo. Ambos resistiram à Primavera Árabe e aos movimentos mais radicais do Islão. O principal aliado de Abu Dhabi e Riade era o mesmo: os Estados Unidos da América. O principal inimigo também: a República Islâmica iraniana. Havia muito a uni-los. Mas, curiosamente, foi a atual guerra no Irão que tornou a rutura entre os dois países impossível de esconder: deixaram de agir como um bloco único, tendo interesses geopolíticos claramente distintos.

Mohamed bin Salman, príncipe herdeiro saudita, e Mohamed bin Zayed Al Nahyan, Presidente dos Emirados Árabes Unidos

Ryan Carter / Ministry of Presidential Affairs

Na relação entre os dois países, a Arábia Saudita funcionava como uma espécie de irmã mais velha e os Emirados comportavam-se como um parceiro mais novo, geralmente obediente. Porém, esta dinâmica começou a esbater-se há alguns anos. A rivalidade e a competição foram crescendo ao longo da última década, principalmente após um acontecimento que mudou para sempre a dinâmica do Médio Oriente: a decisão de Abu Dhabi de aderir aos Acordos de Abraão e estabelecer relações diplomáticas abertas com Israel. Apesar de haver promessas de que Riade se juntará, a coroa saudita ainda não tomou esse passo — e a guerra na Faixa de Gaza veio adensar as dúvidas.

A tensão entre as duas monarquias já extravasou as fronteiras do Golfo Pérsico, chegando a África. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos estão envolvidos em conflitos por procuração, apoiando fações distintas no Iémen, na Somália e no Sudão. Ambos querem ganhar influência em diferentes regiões do mundo. Em simultâneo, está a aumentar a rivalidade económica: Riade olha com alguma cobiça e ressentimento para a forma como os Emirados desenvolveram a sua economia nos últimos anos e se converteram num pólo económico e turístico no Médio Oriente, ficando menos dependente das exportações de petróleo.

A “ambição” de querer ser uma potência tecnológica. Como começou a rivalidade

Centros comerciais com lojas de luxo, um dos aeroportos mais movimentados do mundo, o arranha-céus mais alto do planeta (o Burj Khalifa) e nómadas digitais: esta é a imagem que muitos têm dos Emirados Árabes Unidos atualmente. No imaginário coletivo, fica em segundo plano o facto de o país continuar a depender economicamente das receitas do petróleo e de gás natural e de continuar a ser, para além das aparências, um regime conservador e islâmico. Cidades como Dubai e Abu Dhabi tornaram-se destinos apetecíveis para muitos ocidentais construírem vida numa bolha confortável, onde se pagam poucos impostos.

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