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Lua Cintilante, House Milano, Moda Itália França, La Lisa, Sabrina Moda ou Casa das Gangas. Quem passar pelas ruas da Zona Industrial da Varziela, em Vila do Conde, reconhecerá os nomes destas lojas de produtos oriundos da China, umas a seguir às outras, algumas delas ainda com os carateres em mandarim nas fachadas. E quem passar pelas páginas da acusação do Ministério Público (MP) recentemente proferida irá encontrar as mesmas lojas e o desmantelamento de uma alegada rede criminosa que terá branqueado mais de 88 milhões de euros nos últimos anos.

Ao todo são 22 arguidos — 14 cidadãos chineses (oito homens e seis mulheres) e oito empresas —, aos quais o inquérito realizado pelo Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) Regional do Porto imputa a prática de 288 crimes: 240 de falsificação ou contrafação de documento, 22 de branqueamento de capitais e outros tantos de associação criminosa.

Como em qualquer loja deste tipo, é possível encontrar à venda nestes estabelecimentos roupa, artigos de decoração, artigos para o lar, mobiliário, bijuteria e acessórios, calçado, brinquedos, pequenos eletrodomésticos, produtos de cerâmica, materiais de construção ou produtos químicos — tudo para abastecer outros retalhistas. Nas buscas realizadas pela Polícia Judiciária (PJ), em maio de 2025, foi, porém, possível descobrir também sacos escondidos com notas e só numa das lojas (Sabrina Moda) estava cerca de um milhão de euros em ‘dinheiro vivo’.

O “consórcio criminoso” e a comissão de 50 euros por depósito de 10 mil euros

Pelo menos desde 2021, o alegado esquema terá permitido importar bens da China para o espaço europeu contra “as regras do IVA e das tarifas aduaneiras”. Por outras palavras, não pagava o devido IVA e taxas aduaneiras. Daí o MP considerar que estamos perante uma “rede criminosa internacional”.

Com recurso a estruturas operacionais fixadas em vários países da União Europeia, Jianzan Huang, um cidadão chinês de 50 anos radicado no norte de Portugal desde 2015, assumiu um papel central nessa alegada rede, tendo supostamente assumido o controlo dos fluxos financeiros e a criação de sociedades fictícias e contas bancárias de passagem, com documentação falsa. Tudo para fazer circular o dinheiro de várias sociedades da Zona Industrial de Varziela para o estrangeiro.

Neste “consórcio criminoso”, nas palavras do MP, colaboravam arguidos lojistas e arguidos responsáveis pelo branqueamento (‘branqueadores’).

Os fluxos financeiros eram efetuados através de “sistemas clandestinos e paralelos, também não fiscalmente revelados” ao Estado. Daí que MP descreva no despacho de acusação, ao qual o Observador teve acesso, uma “utilização abusiva do sistema bancário e financeiro português”.