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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Há 40 anos, a principal seleção portuguesa de futebol passou rapidamente do sonho ao pesadelo. Da qualificação para o mundial às ameaças de greve por parte dos jogadores, o Observador reconstruiu o polêmico caso Saltillo em quatro episódios. O escândalo que destruiu a seleção é um podcast que pode ouvir na íntegra nas habituais plataformas. Falamos com jogadores, dirigentes e jornalistas que estiveram no México. Consultamos também as páginas dos jornais desportivos desse período, bem como o relatório da participação portuguesa no Mundial de 1986. Desta vez, importa olhar para outro documento decisivo na forma como se olha hoje para os atletas que em tempos foram apelidados de mercenários. Recebemos, por isso, o advogado Jaime Dória Cortesão. Eu sou a Carla Jorge Carvalho e ao meu lado está o Carlos Pedro.

É licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, tinha 41 anos em 1986 e foi ele quem ficou responsável, a pedido da Federação Portuguesa de Futebol, por instruir um inquérito aos fatos ocorridos durante o Campeonato do Mundo do México. Jaime Dória Cortesão está conosco em estúdio. Bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por aceitar falar conosco. Perguntava-lhe já em que circunstâncias foi convidado para fazer o relatório sobre os acontecimentos de Saltillo. Quem o contactou?

Quem me contactou foi exatamente o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, o doutor Silva Resende, por indicação de um amigo comum que tinha trabalhado comigo, exatamente antes do 25 de abril, no Ministério das Cooperações. Foi essa pessoa que um dia eu estou no Porto e recebo uma chamada telefônica e que me diz: "Vou te passar o doutor Silva Resende", que eu não conhecia de parte nenhuma, a não ser de nome e de bom nome, aliás. E ele disse: "Senhor doutor, como sabe, houve aquele caso Saltillo e tal. Gostaríamos que o senhor doutor procedesse ao inquérito do que se passou em Saltillo". E eu disse: "Deixe-me pensar, dou-lhe a resposta". Presumo que disse: "Dou-lhe a resposta amanhã", uma coisa qualquer assim. E pronto. E então avancei.

Avançou. O que ponderou? O que o levou a aceitar e o que o levou a pensar, se é que isso aconteceu, que não valia a pena entrar nesse processo?

Eu vou dizer com toda a sinceridade que aceitei o inquérito no pressuposto de que tinha havido um comportamento perfeitamente censurável da parte dos jogadores e que, portanto, era necessário um inquérito para que isso viesse ao de cima e apurar as responsabilidades. Foi essa a convicção com que eu aceitei. Modifiquei-a toda ao longo do processo.

Pois foi, e queremos perceber como é que acontece isso, porque de facto, todos os portugueses na altura tinham uma opinião sobre o que tinha acontecido em Saltillo. Ficou indignado com a atitude dos jogadores.

Fiquei indignado porque o que vinha cá para fora era um comportamento indecoroso dos jogadores. E lembro perfeitamente que até havia, nessa altura, a ideia de que os jogadores tinham tido uma voz ativa por intermédio de um triunvirato, que era o Bento, o Carlos Manuel e o Diamantino, o chamado Grupo do Barreiro. Portanto, identificados com esquerdismo, para não dizer o PC. Era o que constava nessa altura na chamada sociedade, que hoje nós denominamos com muito orgulho, sociedade civil. E eu fazia parte dessa sociedade civil e também estava convencido que tinha sido isso.

Mas quando é que ouve falar pela primeira vez de polêmicas em Saltillo, quando é que chega aos seus ouvidos que há, de facto, problemas com a seleção nacional no estágio do Mundial 1986?

Não lhe posso precisar a data certa, mas foi na altura, exatamente, quando a seleção já estava no México, já estava em Saltillo.