Lagarde insistiu que esta subida das taxas de juro não foi uma decisão "preventiva". Subir os juros por razões "preventivas" significaria tomar essa decisão não por ela ser necessária neste momento mas, sim, para evitar ter problemas no futuro, como quando se paga um seguro. Mas não foi nada disso que aconteceu, frisou a presidente do BCE, gerando algum ceticismo entre os analistas. Ao que apurou o Observador, esse ceticismo tem razão de ser porque, nos bastidores, a autoridade monetária não considera que a inflação está, neste momento, a descontrolar-se – mas existe preocupação até porque ainda está muito fresco na memória de todos o anterior surto inflacionista.
De acordo com fontes do Banco Central Europeu (BCE), os economistas da autoridade monetária estão especialmente preocupados com dois riscos capazes, aí sim, de gerar novamente um problema de inflação cujo controlo se pode tornar doloroso, como aconteceu há poucos anos.
O primeiro desses riscos está ligado aos salários, tendo em conta que dentro do próprio BCE se admite que, em 2022, se subestimou a rapidez com que os salários subiram para "correr atrás do prejuízo" relacionado com a perda de poder de compra causada pelo choque energético associado à invasão da Ucrânia pela Rússia. Lagarde preferiu não falar nisso, concentrando-se (sem "vaidade") no ano de 2025 ao longo do qual a inflação se manteve no objetivo de 2%, mas internamente reconhece-se que o BCE não foi capaz de prever, atempadamente, esse aumento insustentável dos salários.
Esse foi o primeiro fator que levou a que a anterior crise inflacionista – que começou com um choque exógeno, vindo do exterior, relacionado com os preços da energia (sobretudo gás e eletricidade) – tenha rapidamente produzido os chamados "efeitos de segunda ordem". Isso acontece quando, a partir de um choque inicial, os agentes económicos – dos trabalhadores às empresas – começam a presumir que a inflação irá manter-se elevada durante muito tempo. É esse o pior pesadelo dos bancos centrais.
Há um segundo fator, porém, que está a preocupar os economistas do BCE e que está relacionado com as lições aprendidas na crise inflacionista de 2022/2023. Tão ou mais importante para que a inflação tenha disparado para mais de 10%, nessa altura, foi o facto de as empresas terem dilatado as suas margens de lucro. Fizeram-no para acumular "almofadas" para o futuro mas fizeram-no, sobretudo, porque puderam fazê-lo – existia forte procura pelos seus bens e serviços, de um modo geral, depois de os consumidores terem acumulado disponibilidades financeiras durante a pandemia, valores que, depois, ao serem gastos com a reabertura das economias, deram "terreno fértil" para a subida da inflação.