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Será que a história da humanidade começa com um conflito mortal entre irmãos? Este é o primeiro episódio da segunda temporada de "As Histórias da Bíblia", o podcast da Rádio Observador, em que deciframos o livro mais impresso e distribuído da história da humanidade, mas não necessariamente o mais lido. Eu sou o João Francisco Gomes, jornalista e escrevo sobre religião no Observador.

Eu sou o Daniel Nascimento, padre e professor na Universidade Católica Portuguesa.

Eu sou o João Basto, padre e colunista do Observador.

Depois de, na primeira temporada, termos percorrido a história bíblica do princípio até ao fim, nesta segunda temporada, com a ajuda destes dois especialistas, vamos todas as semanas olhar para algumas das personagens mais emblemáticas da Bíblia. Neste episódio, vamos olhar para a história bíblica dos primórdios da humanidade, logo nos primeiros capítulos do Gênesis, ainda nas páginas da Bíblia que contam os mitos da criação. É lá que encontramos a história dos irmãos Caim e Abel, os dois filhos de Adão e Eva. Uma história de rivalidade e ciúme que acabou em tragédia, escrita para ajudar a compreender a natureza humana e que também ajudou a moldar histórias de irmãos desavindos na literatura, no cinema e na televisão. Estas são as histórias da Bíblia. Olá a todos. É verdade, as histórias da Bíblia estão de volta para mais uma temporada. Muito obrigado a todos os ouvintes da primeira temporada, e foram muitos. Foram muitos também aqueles que nos encorajaram a continuar. Ora bem, nós na primeira temporada olhámos para a Bíblia do princípio até ao fim, era essa a proposta, mas desta vez vamos olhar com maior detalhe para algumas passagens específicas dos textos bíblicos e vamos tentar conhecer a fundo algumas das personagens mais emblemáticas da Bíblia. Mas antes disso, e os ouvintes já perceberam pela abertura que tivemos aqui uma mudança no nosso painel, vamos apresentar o painel desta segunda temporada. Continua conosco o padre João Basto, colunista do Observador e voz conhecida dos nossos ouvintes. Olá, João.

Olá.

E desta vez vai juntar-se a nós o padre Daniel Nascimento. Olá, viva, Daniel.

Olá.

Muito obrigado. Daniel é padre católico na Diocese de Setúbal, é também professor na Universidade Católica em Lisboa. Ensinas grego, hebraico, Pentateuco, não é assim?

Isso mesmo, coisas do Antigo Testamento, basicamente.

E também estiveste em Jerusalém algum tempo a estudar ciências bíblicas e arqueologia.

Isso mesmo.

Muito bem. Então é com estes dois especialistas que ao longo desta temporada vamos continuar a olhar para a Bíblia. Mas antes ainda de irmos à história de Caim e Abel, quero partilhar uma novidade com os nossos ouvintes. A partir de agora, temos um e-mail, ashistoriasdabiblia@observador.pt. É para este e-mail que os nossos ouvintes nos podem enviar comentários, perguntas, sugestões. Vamos tentar responder e falar das vossas perguntas e sugestões nos episódios deste podcast. Já sabem, sem qualquer acento, ashistoriasdabiblia@observador.pt. Ao longo dos próximos dois episódios, como dizia, vamos olhar para algumas das personagens mais famosas da Bíblia. São protagonistas de algumas histórias que marcam decisivamente a cultura ocidental. E esta semana voltamos até o início da Bíblia para olhar para o primeiro livro, o Gênesis. Nós na temporada passada falámos de Adão e Eva e do pecado original. Portanto, não vamos voltar a esse início da história bíblica, mas vamos olhar para a segunda geração, para os filhos de Adão e Eva, os famosos Caim e Abel. Daniel, começo por ti. Esta história que surge logo no quarto capítulo do Gênesis, depois do episódio do pecado original e da expulsão do paraíso, queres contar-nos rapidamente o que é que acontece aí? Quem são estes dois irmãos?

Sim, então expulsos do paraíso, Adão e Eva, ou melhor dizendo, o homem e a mulher. Vamos não esquecer que são personagens representativos da condição humana. Adão, Adam, quer dizer homem. Eva, Hava, quer dizer dadora de vida, portanto, sublinha-se a maternidade. Então têm filhos, têm estes dois filhos, Caim e Abel, que são logo caracterizados pelo que fazem. Caim era agricultor, Abel era pastor. E aí logo vemos que isso também representa aquilo que é a humanidade na cultura do Israel antigo. Estas duas formas de vida dos agricultores que cuidam ali de um campo, que produzem frutos, fruta, legumes, e o pastor que, de forma mais itinerante, vai passando aí por campos. Portanto, de alguma forma, estes dois irmãos representam estas duas condições básicas de vida e também os conflitos que vão ter. De fato, vai haver este conflito porque depois de oferecer um sacrifício, como era habitual nas culturas antigas, esta ideia da ligação com Deus através da oferta de um sacrifício dos produtos da terra, no caso de Caim, dos produtos dos seus rebanhos, no caso de Abel, o texto diz-nos que Deus olha favoravelmente para Abel e não para Caim. Caim fica de rosto abatido e isso leva a um processo de violência-

Ciúmes

...contra o seu irmão. Sim. O texto também é relativamente silencioso, é algo interessante também olharmos não só para o que o texto diz, mas para o que não diz, o que nos permite também deixar em aberto estados de espírito e aquilo que pensaria e aquilo que vai acabar por fazer, que é convidar o seu irmão a ir pro campo e aí matá-lo.

Aliás, é um aspecto curioso que estavas a mencionar, é que o texto é realmente muito curto. São meia dúzia de parágrafos, ali é um capítulo, e que apesar de tudo acaba por ter uma importância muito grande na nossa cultura. Mas é um texto muito curto, que apresenta logo Caim e Abel já como adultos, não sabemos nada sobre a infância, sobre a juventude, são logo o pastor e o agricultor. Depois deste homicídio, João, temos a continuação da história e há um momento talvez fatal ali na história, que é quando Deus se vira pra Caim, já depois da morte de Abel, e lhe pergunta: "Onde está o teu irmão?" E a resposta é logo uma mentira.

Se calhar, a primeira coisa que gostava de dizer nesta nova temporada é que nós precisamos de reafirmar de novo: nós estamos diante de grande literatura. E aquilo que nós fazemos aqui neste podcast é tentar aproximações àquilo que são textos que estão muito codificados e que são mais infinitos. Aliás, o Dom José Tolentino Mendonça, que se calhar vamos falar um bocadinho mais à frente, tem um livro sobre a leitura da Bíblia que se chama "A Leitura Infinita". Nós participamos desta leitura infinita. São Gregório Magno dizia inclusivamente que a leitura e a Bíblia crescem com os seus leitores. E, portanto, nós estamos a participar deste exercício de crescimento, como, por exemplo, o Stanley Cavell faz crescer o Hamlet quando o compara à intriga internacional do Hitchcock. Portanto, é este também o exercício que nós fazemos, não sendo nós, pelo menos eu, o Stanley Cavell. Agora, partindo da tua pergunta. Essa pergunta de Deus: "Onde está o teu irmão?", que retoma a pergunta "Onde estás?" que Deus também faz a Adão, é uma pergunta que vem na sequência de uma tentativa de Deus de chegar à fala com Caim. Depois daquilo que o Daniel falou, que é o sacrifício em que Deus olha com agrado para o de Abel e não olha para o de Caim, Deus tenta, depois de Caim ficar de trombas, realmente rosto abatido, tenta chegar à fala com Caim, tenta lhe mostrar que ele pode resolver a situação de outro modo, numa feliz expressão de um biblista de origem francesa, Caim pode se tornar pastor da sua própria animalidade, aquilo que dentro dele parece começar a surgir como um grande monstro interior, mas Caim nunca fala, nunca trata o seu irmão por seu irmão, nunca o trata pelo nome. E neste extremar de posição em que Caim é consumido por dentro, Caim responde a Deus que não sabe do seu irmão, portanto, nega-lhe a sua própria memória, nega-lhe futuro, nega-lhe presença e chega até a dizer a Deus: "Sou eu, porventura, guarda de meu irmão?" Que é uma forma quase infantil, que nos faz entender que Deus até parece que se equivocou na pergunta. Como uma criança que desarrumou o quarto, o pai perguntou o que se passou e ela: "Mas eu não sei de nada. Sou eu, porventura, este é o meu quarto, sou eu que tenho que arrumar?" Caim está claramente dominado por alguma coisa que o consome por dentro e que a situação do sacrifício aceito e não aceito acaba por despoletar.

Mas, Daniel, como falavas há pouco desta ideia dos silêncios, a verdade é que nós nunca sabemos por que Deus olha favoravelmente pra um sacrifício e não pra outro.

Sim.

E o texto sublinha até muito isto que o João dizia da fraternidade. Caim não diz que Abel é seu irmão, mas o texto diz. O texto repete várias vezes esta ideia de que é irmão. Deus que se dirige a Caim e diz: "Onde é que está Abel, teu irmão?" Aquilo que Caim não quer aceitar, o texto sublinhou várias vezes. O texto é também misterioso nesse sentido, porque não há uma explicação clara pra esta preferência de Deus. Talvez alguma pista narrativa que possa aqui estar presente é esta ideia de que Caim oferece dos produtos que tem, uma oferta genérica, enquanto Abel terá oferecido dos primogênitos do seu rebanho e das suas gorduras, portanto, terá oferecido do melhor, como que deixando intuir que, de fato, Abel faz uma oferta generosa do melhor que tem, enquanto Caim é mais geral.

Dá o que sobra.

Dá o que sobra. E, portanto, que logo a atitude à partida de Caim não seria a melhor.

Nós sabemos que depois deste episódio todo em que Caim acaba por assassinar o irmão, de o levar para o campo e por o assassinar, Caim acaba por ser expulso por Deus, tal como Adão e Eva também tinham sido expulsos, afastados de Deus, e depois obrigado a tornar-se, de certa maneira, um nômade, a andar por ali sem terra. Como é que nós lemos esta punição de Caim?

À imagem daquela de Adão e Eva, esta também é uma punição, mas também uma proteção. Tal como o homem e a mulher são expulsos do paraíso, mas Deus reveste-os com umas túnicas de pele, ou seja, não os abandona propriamente sem nada. Aqui também, Caim torna-se, de certa forma, um vagabundo, mas é protegido. Esta marca de Caim não é propriamente uma condenação, mas é uma proteção, seria uma espécie de sinal identificativo pra que ninguém o pudesse matar.

O que o texto diz é que Deus expulsa Caim, depois Caim fica muito indignado e diz: "Mas se eu for aqui pro meio do mundo, não tarda, matam-me".