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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Os dias do fim do primeiro-ministro britânico.

The election results last week were tough. Very tough. We lost some brilliant Labour representatives. That hurts.

Num discurso muito aguardado, Keir Starmer começou por assumir responsabilidades na pesada derrota dos trabalhistas nas eleições locais. O Labour perdeu mais de mil vereadores, perdeu onde nunca tinha perdido nos últimos anos e cedeu espaço à direita radical de Nigel Farage.

I know that people are frustrated by the state of Britain, frustrated by politics, and some people frustrated with me.

Keir Starmer admitiu que ele próprio é parte do problema, mas recusou apresentar a demissão, prometeu fazer mais e melhor. E agora tem o Partido Trabalhista, o seu próprio partido, à perna, a pedir-lhe que saia antes que faça mais estragos. Eu hoje vou conversar com o Henrique Borné, especialista em assuntos europeus, para decifrarmos esta nova crise política em Londres, para percebermos o que isto significa para o futuro do Reino Unido e já agora, como é que a Europa olha para tudo o que está a passar-se com o ex-parceiro, que vai ensaiando tímidas reaproximações. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de terça-feira, 12 de maio. Olá, Henrique.

Olá, Pedro. É sempre um gosto voltar à Rádio Observador.

E é um gosto também falar contigo aqui nestas histórias do dia, sobretudo quando tratamos de assuntos que, neste caso, nem têm a ver diretamente com a Europa como ela existe hoje em dia, mas pode muito bem vir a ter e por isso vamos começar a mergulhar aqui naquilo que se passa no Reino Unido. Há aqui uma curiosidade, desde logo, e uma dor de cabeça para o primeiro-ministro Keir Starmer, mais uma, que é depois destas eleições locais, que deram início a esta crise política interna, o mapa do Reino Unido ficou bastante diferente, o mapa eleitoral ficou bastante diferente daquilo que era tradicional até aqui.

Isto são eleições locais, não é? Portanto, é apesar de tudo um pouco diferente. Mas todos nós temos presente que o Reino Unido era aquele caso paradigmático onde um sistema eleitoral majoritário, isto é, quem ganhasse a maioria dos votos, ganhava o representante por círculos nominais. Isto foram eleições locais, não é dessas que estou a falar agora. Mas é nessas que nós estamos a pensar quando estamos a olhar para as locais. Tradicionalmente, esse sistema faz com que haja menos partidos, porque as pessoas votam, até fazem voto tático, votam num dos dois que podem passar. E, portanto, tradicionalmente há dois grandes partidos e um terceiro partido, os liberais, que aqui e ali tinham alguns resultados, às vezes melhor, e tudo o resto era muito residual. O UKIP, agora Reform, tem vindo a destabilizar este sistema.

É o partido de Nigel Farage, só para as pessoas terem mais noção. Portanto, digamos, um partido mais de direita populista.

Tem vindo a destabilizar. E há uma coisa que eu tenho vindo a notar nos últimos anos e a discutir com algumas pessoas, que é precisamente este sistema esconde o progresso destes partidos. Ou seja, enquanto um sistema como nós temos em Portugal, desde que os partidos cresçam em círculos eleitorais com muitos deputados, e este fenômeno vai se vendo, vão ganhando um, dois, cinco, três, 10 deputados e vão surgindo. E não é preciso pensar nos partidos, no Chega agora nos últimos anos. Se olharmos para o Bloco de Esquerda ou o Livre, esses partidos foram surgindo e iam se vendo no sistema eleitoral, porque o sistema eleitoral permite eleger mais do que um deputado por círculo e, portanto, começam a aparecer. No Reino Unido, eles não têm entrado no Parlamento britânico porque isto não é visível por causa deste sistema, mas tem se começado a notar que eles estão a crescer. Ou seja, crescem em número de votos, mas não passam a barreira. Agora, o que estamos a ver é que aquilo que os especialistas dizem é que se estas eleições fossem traduzidas em eleições nacionais, isto daria à volta de 26 a 27% ao partido de Nigel Farage, claramente em primeiro lugar. E, portanto, é um dos perigos que este sistema tem, é que esconde a progressão de um partido de franja, mas quando ele aparece, salta para os primeiros lugares, primeiro e segundo lugar, e é o que parece estar a acontecer.

Foi, aliás, um dos vencedores desta noite de eleições locais, sendo que, para além das eleições locais, houve também duas eleições legislativas importantes. No caso da Escócia, que já era governada por governos nacionalistas e que queriam ter uma vida própria, nomeadamente até no que diz respeito à relação com a União Europeia, mas agora, pela primeira vez também, o país de Gales, que foi governado historicamente pelos trabalhistas, também aqui houve uma derrota pesada.

Também, e uma vitória dos nacionalistas. E, portanto, a leitura que começa a ser feita é que o sistema partidário tradicional está em crise e a organização política do reino também pode estar em criseNão é daqui que saltaremos certamente para a independência de Gales. A Escócia não se tornou independente, mas isto fragiliza a organização política do Reino Unido. Isto pode contaminar outras situações, mas fragiliza o Reino Unido. E esse é o sinal principal, que é de uma organização política e partidária razoavelmente estabilizada e com acordo entre si, apesar de tudo, agora para uma situação facilmente quebrável. Isto é um risco para o papel, inclusive do Reino Unido, à escala internacional, porque se formos cortando fatias, também perde peso. De resto, na Europa sempre se olhou para a situação da Escócia, salientando precisamente o que dizias, que era a Escócia, se pudesse, ter-se-ia mantido na União Europeia.

E já agora que falamos da União Europeia, olhando para este resultado do Partido Trabalhista, que foi um resultado francamente mau nestas eleições, mais uma vez sublinhamos que são eleições locais, mas tu olhando para este resultado e no quadro daquilo que tem acontecido na Europa, é um resultado que achas muito discordante daquilo que tem sido a tendência eleitoral de vários países europeus nos últimos anos?

Não, não é. Aliás, há um sinal impressivo. Se olharmos pela Europa da União Europeia fora e formos à procura de governos liderados pelos socialistas, vamos ter muita dificuldade em encontrar. Nós neste momento encontramos quatro governos liderados por socialistas. Espanha, que é um partido socialista forte num país grande. É um governo socialista da ala esquerda dos socialistas europeus. Depois encontramos Malta, e sem nenhuma desconsideração por Malta, reconheceremos que não é um dos grandes países da União Europeia. E depois vamos encontrar a Dinamarca, que eu costumo dizer por brincadeira, que o resto dos socialistas não consideram que Mette Frederiksen seja verdadeiramente uma socialista. E depois vamos encontrar apenas no Conselho Europeu, o presidente do Conselho Europeu, António Costa. Quando há uma reunião dos chefes de Estado e de governo da União Europeia, há mais um na sala, que não tem direito de voto, que é o socialista António Costa. Pela Europa fora, neste momento, isto pode vir a mudar. Na Suécia é possível que venha haver aqui uma alteração, mas se nós pensarmos em França, em Itália, na Alemanha, por estes países fora, e a leste então os resultados ainda são mais desastrosos. Na Hungria não estão dentro do Parlamento, no Parlamento Checo ficaram com 4,3% nas últimas eleições, na Bulgária 3%, na Eslovénia menos de 7%. Há pela Europa fora vários países onde os socialistas estão a perder muito e normalmente associado a isto há um crescimento da extrema-direita ou da direita nacionalista, que muitas vezes tem uma agenda econômica que ao contrário do que as pessoas às vezes pensam, não é tão oposta à agenda socialista, isto é, é uma agenda social. Alguém se referia a uma espécie de sociais nacionalistas.

Um bom termo.

Há aqui uma ameaça à esquerda tradicional, que muitas vezes tentou empurrar a direita para os braços da extrema-direita, acusando-a de se estar a aproximar à extrema-direita e de ser semelhante, mas parece que os eleitores que estão a saltar para a extrema-direita vêm muitas vezes dos partidos socialistas. Isso é obviamente preocupante para a tradição europeia de ser governada pela União Europeia, ser governada por partidos que apesar de tudo conversavam entre si.

Estão no centro.

Exatamente. Estes partidos que estamos a falar não conversam nos mesmos termos com a direita tradicional.

Henrique, vamos fazer aqui um curto intervalo e daqui a pouco vamos voltar à conversa, até porque quero saber que efeitos isso pode ter na União Europeia, o resultado britânico e aquilo que pode acontecer nas próximas semanas. E também quero falar de uma coisa muito very British, que acontece na política inglesa. Até já. Estamos de regresso à conversa com o Henrique Bornert sobre aquilo que está a acontecer na política da Grã-Bretanha neste momento. Henrique, falávamos destes resultados conseguidos pelo Partido Trabalhista, liderado por Keir Starmer, que não foram brilhantes, e de imediato aconteceu uma coisa que não é assim tão rara na política britânica, que é um pedido do próprio partido para que o primeiro-ministro em exercício saia de funções e se demita porque não está a fazer um bom trabalho.

É uma coisa muito peculiar da política inglesa. Em França também acontece mudar-se de primeiro-ministro sem haver eleições, mas o primeiro-ministro não tem o mesmo lugar na política francesa que tem na política britânica. No Reino Unido acontece esta coisa extraordinária, que levam mesmo a sério a ideia de serem eleições parlamentares. De resto, os membros do governo vêm do Parlamento e o primeiro-ministro pode ser substituído sem que haja eleições e sem que haja grande escândalo quanto a isto. Lembremos que os conservadores têm feito isso com recorrência. Só para lembrar que nas últimas décadas, Thatcher foi substituída por MajorE depois, nos conservadores, nos últimos anos tivemos uma sucessão depois de Boris Johnson, Theresa May, a senhora que durou menos tempo que uma alface e cujo nome agora me escapa, e o último primeiro-ministro antes de entrarmos para um governo Labour. Os Labour não têm feito isto, mas neste momento põem-se essa hipótese. É uma coisa original de quem acha que as eleições são verdadeiramente parlamentares. Repara, por comparação com quando em Portugal o primeiro-ministro Durão Barroso foi para presidente da Comissão Europeia, foi para Bruxelas para presidente da Comissão Europeia, o presidente Sampaio aceitou nomear uma pessoa do PSD para liderar o governo, mas houve uma enorme discussão em Portugal sobre a razoabilidade de fazer isso. Foi só por ser a situação excecional de vir para Bruxelas e, portanto, era uma espécie, um orgulho pátrio, não podemos deixar que seja por causa disso que não vai, e mesmo assim foi uma solução que durou muito pouco tempo. Nós não temos essa experiência, nós não temos esse hábito e ainda nas últimas eleições, na última vez quando o primeiro-ministro António Costa se demitiu, circulou vagamente a ideia de que poderia o PS indicar outro nome e isso foi imediatamente não aceite. Aliás, o presidente da República tinha dito que não estaria para aí virado.

Apesar de em Portugal o governo, o primeiro-ministro emanar também do Parlamento.